sexta-feira, 17 de junho de 2011

Em ponta de lança

    Outro dia, cheio de entusiasmo, como é comum aos atores, um grande amigo, contava sobre exercício preparatório para seu último espetáculo, nele, os participantes deveriam permanecer calados e realizar lá suas teatrices de boca fechada, bem fechada, só deveriam pronunciar uma palavrinha se -  bem entendido, muito bem entendidíssimo - sentissem que, se, não falassem, morreriam. Situação bastante dramática, bem comum, também, entre atores.
   Pensei em mim, não pela situação dramática, fique esclarecido. Passei a vida toda num estado semelhante, caladinha. Então, eis que, de meu sossego e silêncio, surge não sei que diabinho vermelhusco e me belisca a ponto de me fazer acreditar na proximidade da morte, caso não solte o verbo, pegue da pena, sacuda os teclados. E - horror para minha timidez e discrição - não é para ele suficiente e acalentador que me dirija à papelaria, leve para casa caderninho todo especial, com páginas de papel reciclado, capa marmorizada e outros quetais e o cubra de anotações a caneta de variadas cores e pontas. Nem mesmo que combine este carnaval escriturístico a um perfil de moça feliz no Facebook. Nada disso satisfaz o tal capeta beliscante, ele quer um blog! Não abre mão! Pondero daqui, pondero dali. Reclamo, me recuso. Mas ele mantém o garfinho espetado em minha cintura. Empurra que empurra. "Escreve! Escreve!", ele ordena.
   Como parece não haver outro jeito de sair da situação, resigno-me e obedeço. Assim, ponho-me a trabalhar em favor do tal blogzinho, que não há de estar sendo forjado na fornalha que queima a lenha das virtudes celestiais, mas naquela que, provavelmente, torra a cepa de um dos mais mal-afamados sete pecados.
   Muito feliz, pensando estar livre, afinal, delito feito, satã satisfeito,  percebo que não, o cujo não anda só, mas em má companhia. Deixou comigo um fulano contratado para editor particular de cada uma das combinações de letras que eu ousar. Codinome do comparsa: Superego Pitbull!
   E ainda dizem por aí que as letras se apresentaram a Deus e que foi Ele quem lhes deu funções!

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